Entre encontros, poeira e memórias: a tradição que ajuda a manter vivo o Quilombo de Queimada Nova

Das antigas festas de argolinha à cavalgada que reúne gerações, Queimada Nova transforma a cultura vaqueira em expressão de pertencimento, celebração comunitária e movimentação econômica.

Por Nathan Rocha

Cavalgada da Queimada Nova 2026/Foto: Douglas Azevedo

Há histórias que não estão guardadas nos livros. Permanecem na memória dos mais velhos, nas conversas ao entardecer, no som das pisadas dos cavalos que atravessam as estradas de terra e nas lembranças de um tempo em que as festas reuniam famílias inteiras ao redor de uma tradição.

No Quilombo de Queimada Nova, zona rural de Morro do Chapéu, na Chapada Diamantina, Bahia, a cultura vaqueira é uma dessas histórias. Uma herança que atravessa gerações, acompanha as transformações da comunidade e encontra, nas cavalgadas, uma maneira de continuar presente. Quem escuta os moradores mais antigos logo percebe que essa história não começou com as grandes estruturas de palcos, os paredões ou a chegada de visitantes de outras localidades. Suas raízes estão nas antigas festas de argolinha, realizadas no quilombo há mais de duas décadas.

Naquele tempo, as disputas de habilidade entre vaqueiros eram também oportunidades de encontro. Famílias se reuniam para acompanhar as apresentações, rever conhecidos e compartilhar momentos de alegria. Mais do que uma competição, a argolinha fazia parte da vida social da comunidade. “A tradição vem de muitos anos, desde o início dos anos 80. Juntaram as famílias Brito, Oliveira e Calixto para organizar a primeira grande festa de argolinha, mobilizando toda região com a participação de mais de 100 vaqueiros”, lembra Adelmo Rodrigues, organizador das festas de argolinha na Queimada.

Tradicional Festa de Argolinha no início dos anos 2000 no Parque Valdemar Rodrigues, em Queimada Nova/Foto de arquivo/Adelmo

Adelmo conta, ainda, que no início dos anos 2000, foi criado o Parque Valdemar Rodrigues, local que se tornou referência das tradicionais festas de argolinha, na região. Porém, com o passar dos anos, as formas de celebrar foram se transformando. As festas de argolinha abriram caminhos para outras manifestações da cultura equestre, entre elas as cavalgadas, que ganharam espaço no calendário festivo de Queimada Nova no ano de 2015.

Mudaram as gerações, os caminhos e a dimensão dos encontros. Mas algo permaneceu: o sentimento de pertencimento que acompanha quem monta um cavalo e reconhece nessa prática uma parte de sua própria história.

Tradicional Festa de Argolinha no início dos anos 2000 no Parque Valdemar Rodrigues, em Queimada Nova/Foto de arquivo/Adelmo

A cultura vaqueira e os caminhos do sertão

Para compreender o significado das cavalgadas no interior da Bahia, é preciso olhar para a própria formação histórica do sertão brasileiro. Desde o período colonial, a criação de gado desempenhou papel importante na ocupação de extensas áreas do interior nordestino, estabelecendo caminhos, atividades econômicas e modos de vida associados à figura do vaqueiro.

Essa relação histórica entre a pecuária e a formação do sertão é abordada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em seus estudos sobre a história econômica e territorial do Brasil. A expansão dos rebanhos para o interior contribuiu para a formação de povoados e para a consolidação de práticas culturais que permanecem presentes na identidade sertaneja.

Responsável por conduzir animais, percorrer longas distâncias e enfrentar as condições do semiárido, o vaqueiro tornou-se personagem marcante da cultura nordestina. Sua presença ultrapassou o trabalho no campo e encontrou expressão na literatura de cordel, nas narrativas orais, nas celebrações religiosas e, sobretudo, na música.

Artistas como Luiz Gonzaga, eternizado como o Rei do Baião, ajudaram a projetar nacionalmente o universo cultural sertanejo. Em canções como A Morte do Vaqueiro, a figura do trabalhador do campo aparece associada à coragem, à saudade e às dificuldades da vida no sertão. Outros nomes, como Kara Véia e Galego Aboiador, também representam, em diferentes estilos, a presença do cavalo, do aboio e das tradições rurais na música popular.

Luiz Gonzaga – O Rei do Baião

Na Bahia, uma das maiores expressões dessa herança cultural acontece no município de Curaçá, no norte do estado. A tradicional Festa do Vaqueiro de Curaçá, que já ultrapassou 70 edições, reúne gerações em uma celebração marcada pela fé, pela memória e pela valorização do vaqueiro sertanejo. A festa é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia, constituindo uma referência importante para compreender a permanência dessas manifestações na identidade cultural do estado.

As cavalgadas realizadas atualmente em diferentes municípios nordestinos dialogam com essa trajetória. Embora apresentem características próprias em cada localidade, preservam referências às antigas jornadas a cavalo, aos laços de companheirismo e à valorização das tradições rurais. Já nos territórios quilombolas, essas manifestações também podem ser compreendidas a partir das experiências das populações negras do campo, que participaram historicamente da construção da vida rural brasileira e desenvolveram suas próprias formas de sociabilidade, trabalho e expressão cultural.

Em Queimada Nova, quilombo de Morro do Chapéu, a cavalgada integra esse universo de tradições sertanejas, mas assume características próprias, construídas pela memória e pela participação dos moradores. Das antigas festas de argolinha aos encontros atuais entre vaqueiros e amazonas, a comunidade preserva uma manifestação que atravessa gerações e reafirma seus vínculos com o território.

Imagem de arquivo/Cavalgada da Queimada Nova

Na edição de 2026 da tradicional festa de cavalgada, por exemplo, o Grupo Sertanejo de Queimada Nova esteve à frente da organização, reunindo esforços com a comunidade. Neste contexto, a cavalgada pertence à comunidade quilombola e, por isso, sua continuidade depende do envolvimento de moradores, associações, comerciantes, apoiadores e pessoas que reconhecem a importância de manter viva essa manifestação cultural.

Cavalgada da Queimada Nova 2026/Foto: Douglas Azevedo

Quando o quilombo se transforma em ponto de encontro

No dia 20 de setembro de 2026, Queimada Nova recebeu a nona edição da festa, intitulada de “Cavalgada da Tradição”, promovida pelo Grupo Sertanejo. O movimento começou antes da programação festiva noturna. Ao longo do dia, vaqueiros e amazonas chegaram ao quilombo, alguns integrando comitivas organizadas e outros participando individualmente.

Segundo Josencleves Brito, morador da comunidade e um dos organizadores, a estimativa foi de aproximadamente 40 comitivas representadas, além de outros cavaleiros e amazonas que participaram sem integrar esses grupos. A organização também registrou cerca de 30 veículos apenas dos vaqueiros, entre carros boiadeiros e reboques utilizados no transporte dos animais.

A circulação de participantes durante a tarde, somada à presença do público da festa noturna, fez com que o evento alcançasse, segundo os organizadores, uma movimentação estimada de 4 mil pessoas ao longo do dia e da noite. A programação musical contou com a Banda É 10, Vinny Silva e Garotos do Forró, além da locução de Fábio Almeida e da estrutura sonora do Paredão Carretinha JK.

Mas, para além das atrações, a festa também foi marcada por um momento de saudade. Durante a programação, foi realizada uma homenagem a Alexandre Jesus, conhecido como Xandinho, que fez parte do Grupo Sertanejo. A lembrança reconheceu sua participação na história da organização e sua ligação com a cultura vaqueira.

Vale ressaltar que, quando uma cavalgada reúne milhares de pessoas em um quilombo, seus efeitos ultrapassam os espaços da programação cultural. A movimentação alcança bares, lanchonetes, vendedores de alimentos e bebidas e outros serviços que encontram na realização do evento uma oportunidade de ampliar suas vendas.

Em Queimada Nova, essa dimensão econômica tem importância especial. A comunidade, cuja vida produtiva está fortemente relacionada à agricultura familiar e às atividades rurais, também encontra nas festas populares possibilidades de circulação de renda. Ainda de acordo com Josencleves, a organização estima que a edição de 2026 tenha movimentado aproximadamente R$ 60 mil em um único dia, considerando o consumo de produtos e a contratação de serviços relacionados ao evento.

Para os pequenos comerciantes empreendedores locais, a presença de visitantes pode representar um aumento nas vendas. Para os moradores, a realização do evento também proporciona reencontros, momentos de lazer e oportunidades de apresentar a comunidade a pessoas de outras localidades.

Uma tradição construída por muitas mãos

Imagem de arquivo da APRQQN/2016

Embora o Grupo Sertanejo tenha assumido a condução organizativa da nona edição, a cavalgada é uma realização que mobiliza diferentes setores do Quilombo de Queimada Nova. Dessa forma, é a participação das associações comunitárias, dos moradores, dos apoiadores e do poder público que também contribuiu para que a programação acontecesse.

Essa construção coletiva ajuda a explicar a continuidade da festa. Afinal, manifestações culturais não permanecem vivas apenas porque são repetidas todos os anos. Elas precisam fazer sentido para as pessoas que as realizam. Em Queimada Nova, a cavalgada carrega essa dimensão de pertencimento. É uma celebração que reúne diferentes gerações e permite que os mais jovens tenham contato com práticas e referências que marcaram a juventude de seus pais e avós.

O que antes se expressava nas festas de argolinha encontra hoje novos caminhos nas comitivas, nos encontros entre vaqueiros e amazonas e na programação que transforma o cotidiano do quilombo. As festas mudaram, ganharam novas atrações e passaram a reunir públicos maiores, contudo, a memória das antigas celebrações continua sendo uma referência importante para compreender o presente.

Confira, abaixo, alguns registros históricos das festas de argolinhas e cavalgadas realizadas na Queimada Nova.