O Quilombo de Queimada Nova está localizado na zona rural do município de Morro do Chapéu, no semiárido baiano, a cerca de 56 km da sede municipal. Sua história começa por volta de 1922, com a chegada do Sr. Durval Brito, e foi sendo construída ao longo das décadas pela força do trabalho coletivo, pela resistência e pela profunda relação das famílias com a terra. Hoje, são aproximadamente 300 moradoras e moradores que vivem em um território onde memória, identidade e modos de vida tradicionais se entrelaçam, fazendo de Queimada Nova muito mais do que um lugar no mapa: um espaço de pertencimento, de luta e de continuidade ancestral.
Em 2 de maio de 2008, a comunidade foi oficialmente reconhecida pela Fundação Cultural Palmares como Comunidade Remanescente de Quilombo, registrada no Livro de Cadastro Geral nº 011 (Registro nº 1.038, fl. 54). Esse reconhecimento reafirmou a identidade quilombola e fortaleceu a luta por direitos, especialmente pela regularização fundiária, que segue em tramitação no INCRA por meio do Processo Administrativo nº 0880130013155, voltado à aquisição do título coletivo do território. Esse processo é fundamental para garantir a permanência das famílias na terra, a proteção do modo de vida e a continuidade de uma história que atravessa gerações.
O território está inserido no bioma Caatinga, em uma região de clima quente e seco, marcada por estiagens prolongadas e chuvas irregulares. Apesar dos desafios climáticos, importantes conquistas vêm transformando o cotidiano da comunidade: a chegada da energia elétrica em 1997, o abastecimento por poço artesiano, as cisternas do Programa Água para Todos e a implantação de um dessalinizador, que melhorou significativamente a qualidade da água consumida pelas famílias. A comunidade conta também com escola que atende da Educação Infantil ao Ensino Fundamental II, igrejas, espaços de organização coletiva e máquinas agrícolas que apoiam a produção familiar.
A cultura do Quilombo de Queimada Nova é fruto de uma trajetória de resistência negra construída ao longo de mais de um século. Ela se expressa nos saberes que atravessam gerações, na relação cuidadosa com o território, na espiritualidade, na culinária, nas formas de organização coletiva e nas memórias que mantêm viva a identidade quilombola. Cada gesto cotidiano — o plantio em consórcio, o preparo da farinha na casa de farinha comunitária, as rezas, as histórias contadas pelos mais velhos — carrega uma herança ancestral que se renova no tempo presente, afirmando que ser quilombola é, antes de tudo, pertencer a um modo coletivo de existir no mundo.
A força das mulheres negras é o coração dessa cultura. Nomes como Antônia Nery, Lúcia Batista, Sindaura, Dona Izaltina, Dona Iraci, Eloide, Dona Lili e Maria Nilda representam a base sobre a qual a comunidade foi construída. São elas que organizam a vida coletiva, cuidam da terra, transmitem saberes, lideram processos comunitários e mantêm acesa a chama da identidade quilombola. Algumas já não estão mais fisicamente entre nós, mas seguem vivas na memória, nos ensinamentos e nos caminhos abertos para as novas gerações. Falar de cultura em Queimada Nova é, necessariamente, reconhecer que são as mulheres negras quem sustentam, transformam e projetam o futuro do território.
A organização comunitária é uma das grandes forças do Quilombo de Queimada Nova. O território conta com três associações atuantes, todas com sede própria, equipamentos e máquinas agrícolas, que dialogam entre si e desempenham papéis complementares no fortalecimento social, produtivo e cultural da comunidade. Essa estrutura associativa, construída ao longo de décadas de mobilização, é o que permite que as decisões sejam tomadas coletivamente, em assembleia, e que a comunidade tenha voz qualificada diante do poder público, das empresas e das instituições parceiras.
Associação dos Produtores Remanescentes do Quilombo de Queimada Nova
Fundada em 22 de agosto de 1985, a APRQQN é a principal organização representativa do território e completa, em 2025, quatro décadas de atuação contínua. De caráter misto, reúne mulheres e homens em torno da missão de garantir a valorização cultural, a sustentabilidade econômica e a defesa territorial do quilombo, assegurando direitos constitucionais e preservando o meio ambiente.
Ao longo de sua trajetória, a associação tem promovido ações de formação, gestão de projetos produtivos e socioambientais, articulação com órgãos públicos e parcerias institucionais, sempre orientada pelos princípios da legalidade, da impessoalidade, da publicidade e da economia solidária.
Entre suas conquistas estão iniciativas como o projeto de criação de galinhas caipiras do Bahia Produtiva, a Casa de Farinha e a Cozinha Comunitária, empreendimentos que aliam segurança alimentar, geração de renda e resgate da cultura da mandioca.
Associação dos Pequenos Irrigantes Quilombolas de Queimada Nova
A APIQQN nasceu da necessidade de organizar e fortalecer a produção agrícola familiar em um território marcado pela escassez de água e por longos períodos de estiagem.
Sua atuação está voltada para o manejo responsável dos recursos hídricos, a estruturação de sistemas de irrigação adaptados ao semiárido, o apoio técnico aos pequenos produtores e o acesso a equipamentos que ampliam a capacidade produtiva das famílias.
Ao reunir os irrigantes do quilombo em uma organização coletiva, a APIQQN viabiliza a partilha de saberes, a aquisição compartilhada de insumos, a melhoria das técnicas de cultivo e a comercialização da produção local, sendo peça-chave para a soberania alimentar do território. Mais do que uma associação produtiva, a APIQQN representa uma estratégia de convivência com a Caatinga: um modelo de agricultura que respeita o bioma, valoriza a água como bem comum e fortalece a autonomia econômica das famílias quilombolas diante dos desafios climáticos cada vez mais intensos.
Associação das Mulheres Quilombolas Dandara dos Palmares
A Associação das Mulheres Quilombolas Dandara dos Palmares representa a força organizada das mulheres negras de Queimada Nova. Inspirada no nome de uma das mais importantes lideranças negras da história do Brasil — guerreira, estrategista e companheira de Zumbi no Quilombo dos Palmares —, a associação carrega em sua identidade o legado de luta, coragem e protagonismo feminino que atravessa séculos de resistência quilombola.
Sua atuação está voltada para a valorização do papel das mulheres no território, a geração de renda por meio de iniciativas produtivas, a transmissão de saberes tradicionais entre gerações e a defesa dos direitos das mulheres quilombolas. A associação fortalece a autonomia feminina, promove espaços de formação, escuta e organização coletiva, e dá continuidade ao legado de mulheres como Antônia Nery, Lúcia Batista, Sindaura, Dona Izaltina, Dona Iraci, Eloide, Dona Lili e Maria Nilda — referências que ajudaram a construir a comunidade e seguem inspirando as novas gerações.
Em Queimada Nova, falar das mulheres é falar do coração que move o quilombo: é a partir delas que a cultura se mantém viva, que a terra é cuidada e que o futuro é projetado coletivamente.
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Imponente na paisagem da Caatinga, a Barriguda é uma das árvores mais marcantes do território do Quilombo de Queimada Nova. Seu tronco largo, que armazena água para enfrentar os longos períodos de estiagem, é um verdadeiro exemplo da sabedoria da Caatinga: resistir, guardar e florescer mesmo no chão seco. Para a comunidade, a Barriguda é referência geográfica, ponto de encontro e símbolo vivo do bioma único que abriga e sustenta o quilombo. Cuidar dela é seguir os preceitos ecológicos transmitidos pelos antigos — não derrubar o mato, não tocar fogo, deixar a terra protegida — e reafirmar o compromisso de preservar a Caatinga como patrimônio natural, cultural e espiritual do povo quilombola.
Em uma terra onde a água sempre foi luta, o dessalinizador representa um marco de dignidade para o Quilombo de Queimada Nova. Instalado para tratar a água salobra do poço artesiano por meio do processo de osmose inversa, ele transforma o que antes era impróprio para o consumo em água potável, garantindo qualidade biológica e segurança para as famílias.
O sistema é composto por poço tubular, reservatórios, abrigo de alvenaria, chafariz de distribuição e bebedouro para os animais, e funciona como uma verdadeira estação de tratamento comunitária.
Mais do que uma estrutura técnica, o dessalinizador é símbolo da capacidade da comunidade de conquistar avanços concretos em saúde, conviver com o semiárido e cuidar coletivamente de um bem que é de todos: a água.
A Casa de Farinha de Queimada Nova é muito mais do que um local de produção: é um espaço de resgate cultural, geração de renda e fortalecimento da economia solidária. Nela, a tradição secular do cultivo e do beneficiamento da mandioca encontra estrutura adequada para transformar a raiz em farinha, beijus, goma e outros derivados, garantindo segurança alimentar para as famílias e abrindo caminhos para a comercialização.
Junto à Cozinha Comunitária e ao trabalho do Agente de Negócios apoiado pela APRQQN, a usina mantém viva uma das atividades mais simbólicas do sertão e do território quilombola, conectando o trabalho de hoje com os saberes herdados dos antigos. É um espaço onde memória, produção e coletividade se encontram em cada virada de massa no tacho.
A APIQQN (Associação dos Pequenos Irrigantes Quilombolas de Queimada Nova)nasce da força produtiva da comunidade e da necessidade de organizar coletivamente o trabalho dos agricultores e agricultoras que utilizam a irrigação para cultivar alimentos no chão seco do sertão. Com sede própria, máquinas agrícolas e estrutura bem organizada, a Associação fortalece a agricultura familiar quilombola, contribui para a segurança alimentar das famílias e amplia as possibilidades de geração de renda no território.
Ao lado da APRQQN e da Associação das Mulheres Dandara, a APIQQN compõe o tripé associativo de Queimada Nova, demonstrando que a organização social é uma das maiores riquezas do quilombo e um caminho concreto para enfrentar os desafios do semiárido e das transformações que chegam ao território.
A Árvore da Amizade é um dos pontos simbólicos mais queridos do Quilombo de Queimada Nova. Em sua sombra acolhedora, gerações de moradores se encontraram para conversar, descansar do trabalho da roça, contar histórias, planejar a vida comunitária e celebrar a convivência.
É um lugar onde o tempo do quilombo se desacelera, onde se firmam laços, se acertam questões e se constroem afetos. Mais do que uma árvore, é um marco vivo da memória coletiva — testemunha silenciosa de conquistas, lutas, festas e encontros que fizeram da comunidade o que ela é hoje. Preservá-la é preservar uma parte da identidade do território, lembrando que, no quilombo, a vida se faz junto, à sombra e ao redor das raízes que se entrelaçam.
A Escola Municipal de Queimada Nova é um dos pilares da comunidade e um espaço estratégico para o futuro do território. De médio porte, atende crianças e adolescentes desde a Educação Infantil até o Ensino Fundamental II, garantindo que as novas gerações tenham acesso à educação sem precisar se deslocar para longe, o que ajuda a reduzir o êxodo rural e a manter os jovens conectados às suas raízes.
É também um espaço onde se cruzam saberes formais e tradicionais, onde a história quilombola, os ensinamentos da Caatinga, a valorização das mulheres negras e a defesa do território podem ser conhecidos e fortalecidos. Por isso, a escola não é apenas um equipamento público — é um território de formação de identidade, cidadania e pertencimento.
Inspirada na guerreira Dandara dos Palmares, a Associação das Mulheres Quilombolas é a expressão organizada da força das mulheres negras de Queimada Nova. É nela que se reúnem as herdeiras de Antônia Nery, Lúcia Batista, Sindaura, Dona Izaltina, Dona Iraci, Eloide, Dona Lili, Maria Nilda e tantas outras que ajudaram a construir e sustentar a comunidade. Com sede própria e atuação reconhecida, a Dandaras promove a valorização da cultura, o protagonismo feminino, a geração de renda e a transmissão de saberes entre gerações.
Falar das Dandaras é reconhecer que as mulheres não são apenas parte da história do quilombo — elas são a base que move o presente e aponta para o futuro, guardiãs do território, da identidade e da coletividade.
A Associação dos Produtores Remanescentes do Quilombo de Queimada Nova – APRQQN – Fundada em 22 de agosto de 1985 é o coração da organização social do quilombo. Com mais de quatro décadas de atuação, a Associação tem como missão garantir a valorização cultural, a sustentabilidade econômica e a defesa territorial do Quilombo de Queimada Nova, assegurando direitos constitucionais e preservando o meio ambiente. É de sua sede que partem as decisões coletivas, as assembleias comunitárias, as articulações com órgãos públicos e parceiros, e a execução de projetos voltados à geração de renda, à segurança alimentar e à defesa do território diante de ameaças como a LT 230KV Morro do Chapéu BA II – Irecê C2 e C3. Com diretoria majoritariamente feminina e atuação reconhecida no Conselho Municipal de Desenvolvimento Sustentável e no Conselho Estadual de Sustentabilidade para Povos e Comunidades Tradicionais, a APRQQN é referência de luta, organização e protagonismo quilombola na Chapada Diamantina.
No semiárido, onde cada gota de água tem valor, a lagoa conservada é um espaço de cuidado coletivo e equilíbrio com a Caatinga. Destinada principalmente para a dessedentação dos animais criados pelas famílias quilombolas — caprinos, ovinos, bovinos e aves —, ela representa a sabedoria de quem aprendeu a conviver com a estiagem, garantindo que a criação de pequeno porte, fundamental para a economia local, tenha o sustento necessário ao longo do ano.
Preservar a lagoa é também preservar a paisagem, a fauna que dela depende e os ensinamentos antigos repassados pelas gerações: não deixar o gado solto, cercar as áreas de pastagem, dar tempo para a terra e a água se refazerem. É um dos pontos vivos do território, onde se cruzam o trabalho, a memória e o respeito pelo meio ambiente.